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O que os ultrarricos do Japão me ensinaram sobre a definição de riqueza

A partir de conversas com famílias japonesas de altíssimo patrimônio, este ensaio explora uma definição de riqueza que os números não conseguem medir: tempo, confiança, liberdade de escolha e a calma de uma sucessão bem preparada.

Última atualização: Leitura de cerca de 5 min

Quando converso com integrantes da camada ultrarrica do Japão, a conversa raramente gira em torno de aumentar o patrimônio. Bem mais frequente é o tema do que desejam deixar, a quem vão confiar e até quando devem continuar mantendo o que têm.

A definição de riqueza não é apenas o tamanho de um patrimônio. É a liberdade de escolher como empregar o próprio tempo. A capacidade de proteger quem importa. O espaço para decidir, em calma, ao lado de pessoas de confiança. Ao longo de anos assessorando em imóveis e patrimônio no Japão, aprendi essa lição muitas vezes.

Para os leitores de língua portuguesa, vale dizer de saída: esta é uma forma genuinamente japonesa de conceber a prosperidade. Em muitas culturas ocidentais de gestão de patrimônio, o indicador de referência continua sendo o retorno e o crescimento do valor líquido. A perspectiva que descrevo aqui, moldada por donos de empresas familiares e detentores de ativos de longo prazo, coloca no centro a continuidade serena e a transmissão. Mais do que uma tese de investimento, é uma filosofia de guarda.

Pontos-chave deste artigo

  • A definição de riqueza está mais perto de «ter opções reais mantendo a mente serena» do que de qualquer número.
  • Os ultrarricos olham além do preço, para o horizonte de tempo; além da propriedade, para a gestão; além do retorno, para a paz que segue uma sucessão bem-sucedida.
  • À medida que o dinheiro cresce, cresce também a complexidade da gestão patrimonial, da herança, das relações e das decisões.
  • O trabalho que a INA valoriza, proteger os ativos, não é só questão de números. É ordenar o futuro das pessoas e das relações.

O que é a definição de riqueza?

A definição de riqueza não é apenas quanto dinheiro se tem. É o estado de poder decidir, por vontade própria, as escolhas importantes da vida.

Em seu relatório publicado em fevereiro de 2025, o Nomura Research Institute (野村総合研究所, NRI, um dos maiores institutos de pesquisa e consultoria do Japão) classifica como «superricos» (超富裕層, chō-fuyūsō) os domicílios com patrimônio financeiro líquido de 500 milhões de ienes ou mais (cerca de R$ 18 milhões em 06/2026) e estimava cerca de 118 mil desses domicílios em 2023. No papel, os superricos são apenas um segmento que detém ativos financeiros muito grandes.

No entanto, a riqueza que percebo ao conhecê-los pessoalmente não se explica só pelos saldos. Quanto maior o patrimônio, com mais cuidado esses detentores ponderam em que empregar o tempo, com quem se cercar e o que deixar à geração seguinte.

Um empresário, antes mesmo de perguntar sobre a rentabilidade de um imóvel, me disse: «Vou conseguir explicar este lugar aos meus filhos?». Naquela única frase, vi a essência da riqueza. Mais do que vencer nos números, ele queria tomar uma decisão da qual pudesse se orgulhar diante da próxima geração. Ali estava, em silêncio, o critério de uma pessoa de patrimônio.

O horizonte de tempo que os ultrarricos enxergam

Os ultrarricos não julgam só pelos ganhos e perdas de hoje. Consideram o que significa manter um ativo ao longo de dez anos, trinta anos, até a geração seguinte.

Numa decisão de investimento convencional, prevalecem o retorno, o preço, a eficiência fiscal e a estratégia de saída. Isso importa, claro. Mas, entre os ultrarricos, soma-se outra pergunta: «Este ativo continuará protegendo minha família e meu negócio com o passar do tempo?».

O imóvel presta-se bem a essa pergunta. Os prédios envelhecem. Os bairros mudam. Negligencie a gestão e o valor cai. Mas, com boa localização, boa gestão mantida e a confiança das partes preservada, o tempo pode virar aliado. Ao contrário da abordagem mais transacional e voltada à revenda comum em muitos mercados imobiliários, as famílias que acompanho costumam medir o sucesso em décadas, e não no spread entre compra e venda.

A ideia de que os abastados avaliam os ativos pelo horizonte de tempo, e não pelo preço está muito perto dessa sensibilidade. Há quem prefira poder manter um ativo com tranquilidade e por muito tempo a comprá-lo barato.

Riqueza também é não ser apressado. Não vender com pressa. Não comprar com pressa. Não escolher pessoas com pressa. Poder decidir no próprio horizonte de tempo é uma das grandes liberdades que o patrimônio pode dar.

Por que a inquietação não desaparece, mesmo quando o dinheiro aumenta?

A inquietação não desaparece quando o dinheiro aumenta porque, quanto mais cresce o patrimônio, mais há a proteger. O peso da gestão, da sucessão, das relações e das decisões cresce junto.

Os ativos geram segurança. Mas também responsabilidade. Quais ativos manter. Qual imóvel vender. A quem confiar. Como explicar aos herdeiros. Quanto maior o patrimônio, menos pessoal é a decisão: ela alcança a família, a empresa, os funcionários, a região.

O Gabinete do Primeiro-Ministro do Japão (内閣府, Naikaku-fu, a secretaria do governo) realiza a «Pesquisa sobre Satisfação e Qualidade de Vida» (満足度・生活の質に関する調査), cujo objetivo é compreender a economia e a sociedade não só pelo PIB, mas de forma multidimensional, sob a ótica do bem-estar. Isso coincide com uma corrente social mais ampla, que muitos leitores reconhecerão de seus próprios debates, rumo a uma prosperidade que não se mede só em números.

O mesmo vale no terreno imobiliário. Não é a história simples de que números maiores trazem felicidade. Inquietação com a gestão, inquietação com a herança, inquietação por não ter um conselheiro de confiança: se permanecem, os ativos acabam pesando no ânimo.

Como escrevi em por que os abastados não confiam em seus assessores, o que de fato se precisa não é de alguém que venda produtos, mas de alguém que diga também as verdades incômodas. A riqueza não dispensa um interlocutor de confiança.

Os verdadeiramente ricos decidem o que não possuir

Os verdadeiramente ricos não apenas somam ao que possuem; decidem o que não possuir. Preservar espaço livre também é uma condição essencial da riqueza.

A expressão «superricos» pode evocar mansões, casas de veraneio, carros de luxo, relógios e obras de arte. Alguns, sem dúvida, desfrutam de tudo isso. Mas as pessoas que profundamente respeito olham menos a quantidade de bens e mais se eles cabem na vida que de fato levam.

Não manter imóveis que não usam. Não fazer investimentos que não saberiam explicar. Não multiplicar relações que desgastam a cada encontro. Não gastar tempo com aparências. Vistas de fora, essas «decisões de não possuir» parecem modestas.

No entanto, nessa sobriedade há força. Porque há espaço, dá para ouvir a família. Perceber as mudanças nos funcionários. Voltar a atenção à região e à sociedade. Riqueza não é poder comprar tudo; é poder reservar lugar para o que importa.

O World Happiness Report 2025 toma como tema o efeito do cuidado e da partilha (caring and sharing) sobre a felicidade. Compartilho profundamente essa visão. A riqueza tem este lado: encolhe quanto mais se acumula e se aprofunda quanto mais se usa para os outros.

O que a INA aprendeu sobre a essência de proteger os ativos

A essência de proteger os ativos, como a INA a aprendeu, não é só ordenar os números. É ordená-los até o ponto em que quem os receber depois não fique sobrecarregado.

Como empresa imobiliária, não podemos ignorar o retorno e o preço. Taxas de gestão, reformas, ocupação, preço de saída e efeitos fiscais importam todos. Mas, se uma proposta termina aí, ela não alcança as verdadeiras preocupações dos ultrarricos.

Suponha um proprietário de um prédio inteiro, dividido entre vender e deixar à geração seguinte. O necessário não é só a avaliação. É colocar tudo em perspectiva: a carga de gestão futura, o interesse dos herdeiros, a reorganização das dívidas, a relação com a região e a responsabilidade de explicar a decisão de manter.

Proteger os ativos não é só impedir que diminuam. É ordená-los para que o próximo os receba como sentido, e não como fardo.

A essência da riqueza que abordei em como muda a definição de sucesso retorna, no fim, a este ponto, é o que sinto. Quanto maior o patrimônio que se detém, mais a pergunta passa a ser «o que deixar» em vez de «o que ganhar».

Trazer a definição de riqueza de volta ao trabalho e à vida

A definição de riqueza não é assunto só dos ultrarricos. Para todos, é a pergunta de em que empregar o próprio tempo.

Os níveis de patrimônio diferem de pessoa para pessoa. As circunstâncias também. Mas o eixo a partir do qual pensamos a riqueza é comum. O que você preza? Quem você quer proteger? O que precisaria largar para a sua mente serenar?

O mesmo vale ao dirigir uma empresa. Aumentar a receita importa. Mas perseguir só a receita desgasta a sua gente (jinzai, 人財, que a INA escreve de propósito com o caractere de «tesouro» em vez de «material»), enfraquece a confiança dos clientes e, no longo prazo, mina os alicerces da empresa. Por isso a INA coloca as pessoas, a confiança e a visão de longo prazo no centro da gestão.

Riqueza é ter opções. E é poder, quando se as tem, escolher com calma, em consonância com os próprios valores.

A definição de riqueza que os ultrarricos do Japão me ensinaram não é, para mim, «possuir muito». É poder empregar com justeza o tempo, o patrimônio e a confiança para proteger o que importa. Desejo que essa quietude habite também o nosso trabalho.

Perguntas frequentes (FAQ)

Q1. Quem é considerado ultrarrico?

R. Em geral, o termo designa quem tem patrimônio financeiro líquido de 500 milhões de ienes ou mais (cerca de R$ 18 milhões em 06/2026). Neste ensaio, porém, o foco está nos valores e nos eixos de decisão, e não nos números.

Q2. A definição de riqueza difere de pessoa para pessoa?

R. Sim. O que é comum é que a riqueza envolve não só o dinheiro, mas também o tempo, a saúde, a confiança, a família e a liberdade de escolha, em profundidade.

Q3. Qual a relação entre imóvel e riqueza?

R. O imóvel é um ativo e, ao mesmo tempo, um recipiente que dá forma ao cotidiano, à sucessão e à relação com a região. Conforme a gestão, pode trazer tranquilidade ou virar fardo.

Q4. O que considerar primeiro para proteger o patrimônio?

R. Primeiro, esclarecer não o que se quer aumentar, mas o que se quer proteger. Definido o propósito, as decisões de investimento se ordenam.

Citações e referências

Daisuke Inazawa, President & CEO of INA&Associates Inc.

Autor

Presidente e CEOINA&Associates Inc.

Presidente e CEO da INA&Associates Inc. Lidera a corretagem imobiliária, a locação e a gestão de imóveis na Grande Tóquio e na região de Kansai. Especializado em estratégia de investimento em imóveis de renda e consultoria para investidores de alto patrimônio.

Daisuke Inazawa é presidente e CEO da INA&Associates Inc., uma empresa imobiliária japonesa com sede em Osaka e filial em Tóquio. Ele lidera os três negócios centrais da companhia — corretagem imobiliária, locação e gestão de propriedades — na Grande Tóquio e na região de Kansai.

Suas áreas de especialização incluem estratégia de investimento em imóveis geradores de renda, otimização de rentabilidade em operações de locação, consultoria imobiliária para investidores de altíssimo patrimônio (UHNWI) e investidores institucionais, além de investimento imobiliário transfronteiriço. Presta consultoria de longo prazo, baseada em dados, a investidores no Japão e no exterior.

Sob a filosofia de gestão «o ativo mais importante de uma empresa são as suas pessoas», ele posiciona a INA&Associates como uma «empresa de investimento em capital humano» e está comprometido com a criação sustentável de valor corporativo por meio do desenvolvimento de talentos. Como executivo, também se manifesta publicamente sobre liderança e cultura organizacional em tempos de mudança.

Obteve onze qualificações profissionais japonesas: corretor imobiliário licenciado (Takken), Master certificado em consultoria imobiliária, gestor licenciado de condomínios, supervisor licenciado de gestão predial, profissional certificado em gestão de locação, gyōseishoshi (advogado administrativo), responsável certificado pela proteção de dados pessoais, gerente de prevenção de incêndio classe A, especialista certificado em imóveis arrematados em leilão, engenheiro certificado em manutenção de condomínios e supervisor licenciado de operações de crédito.

  • Corretor imobiliário licenciado (Takken)
  • Master certificado em consultoria imobiliária
  • Gestor licenciado de condomínios
  • Supervisor licenciado de gestão predial
  • Profissional certificado em gestão de locação
  • Gyōseishoshi (advogado administrativo)
  • Responsável certificado pela proteção de dados pessoais
  • Gerente de prevenção de incêndio classe A
  • Especialista certificado em imóveis arrematados
  • Engenheiro certificado em manutenção de condomínios
  • Supervisor licenciado de operações de crédito