Quando converso com integrantes da camada ultrarrica do Japão, a conversa raramente gira em torno de aumentar o patrimônio. Bem mais frequente é o tema do que desejam deixar, a quem vão confiar e até quando devem continuar mantendo o que têm.
A definição de riqueza não é apenas o tamanho de um patrimônio. É a liberdade de escolher como empregar o próprio tempo. A capacidade de proteger quem importa. O espaço para decidir, em calma, ao lado de pessoas de confiança. Ao longo de anos assessorando em imóveis e patrimônio no Japão, aprendi essa lição muitas vezes.
Para os leitores de língua portuguesa, vale dizer de saída: esta é uma forma genuinamente japonesa de conceber a prosperidade. Em muitas culturas ocidentais de gestão de patrimônio, o indicador de referência continua sendo o retorno e o crescimento do valor líquido. A perspectiva que descrevo aqui, moldada por donos de empresas familiares e detentores de ativos de longo prazo, coloca no centro a continuidade serena e a transmissão. Mais do que uma tese de investimento, é uma filosofia de guarda.
Pontos-chave deste artigo
- A definição de riqueza está mais perto de «ter opções reais mantendo a mente serena» do que de qualquer número.
- Os ultrarricos olham além do preço, para o horizonte de tempo; além da propriedade, para a gestão; além do retorno, para a paz que segue uma sucessão bem-sucedida.
- À medida que o dinheiro cresce, cresce também a complexidade da gestão patrimonial, da herança, das relações e das decisões.
- O trabalho que a INA valoriza, proteger os ativos, não é só questão de números. É ordenar o futuro das pessoas e das relações.
O que é a definição de riqueza?
A definição de riqueza não é apenas quanto dinheiro se tem. É o estado de poder decidir, por vontade própria, as escolhas importantes da vida.
Em seu relatório publicado em fevereiro de 2025, o Nomura Research Institute (野村総合研究所, NRI, um dos maiores institutos de pesquisa e consultoria do Japão) classifica como «superricos» (超富裕層, chō-fuyūsō) os domicílios com patrimônio financeiro líquido de 500 milhões de ienes ou mais (cerca de R$ 18 milhões em 06/2026) e estimava cerca de 118 mil desses domicílios em 2023. No papel, os superricos são apenas um segmento que detém ativos financeiros muito grandes.
No entanto, a riqueza que percebo ao conhecê-los pessoalmente não se explica só pelos saldos. Quanto maior o patrimônio, com mais cuidado esses detentores ponderam em que empregar o tempo, com quem se cercar e o que deixar à geração seguinte.
Um empresário, antes mesmo de perguntar sobre a rentabilidade de um imóvel, me disse: «Vou conseguir explicar este lugar aos meus filhos?». Naquela única frase, vi a essência da riqueza. Mais do que vencer nos números, ele queria tomar uma decisão da qual pudesse se orgulhar diante da próxima geração. Ali estava, em silêncio, o critério de uma pessoa de patrimônio.
O horizonte de tempo que os ultrarricos enxergam
Os ultrarricos não julgam só pelos ganhos e perdas de hoje. Consideram o que significa manter um ativo ao longo de dez anos, trinta anos, até a geração seguinte.
Numa decisão de investimento convencional, prevalecem o retorno, o preço, a eficiência fiscal e a estratégia de saída. Isso importa, claro. Mas, entre os ultrarricos, soma-se outra pergunta: «Este ativo continuará protegendo minha família e meu negócio com o passar do tempo?».
O imóvel presta-se bem a essa pergunta. Os prédios envelhecem. Os bairros mudam. Negligencie a gestão e o valor cai. Mas, com boa localização, boa gestão mantida e a confiança das partes preservada, o tempo pode virar aliado. Ao contrário da abordagem mais transacional e voltada à revenda comum em muitos mercados imobiliários, as famílias que acompanho costumam medir o sucesso em décadas, e não no spread entre compra e venda.
A ideia de que os abastados avaliam os ativos pelo horizonte de tempo, e não pelo preço está muito perto dessa sensibilidade. Há quem prefira poder manter um ativo com tranquilidade e por muito tempo a comprá-lo barato.
Riqueza também é não ser apressado. Não vender com pressa. Não comprar com pressa. Não escolher pessoas com pressa. Poder decidir no próprio horizonte de tempo é uma das grandes liberdades que o patrimônio pode dar.
Por que a inquietação não desaparece, mesmo quando o dinheiro aumenta?
A inquietação não desaparece quando o dinheiro aumenta porque, quanto mais cresce o patrimônio, mais há a proteger. O peso da gestão, da sucessão, das relações e das decisões cresce junto.
Os ativos geram segurança. Mas também responsabilidade. Quais ativos manter. Qual imóvel vender. A quem confiar. Como explicar aos herdeiros. Quanto maior o patrimônio, menos pessoal é a decisão: ela alcança a família, a empresa, os funcionários, a região.
O Gabinete do Primeiro-Ministro do Japão (内閣府, Naikaku-fu, a secretaria do governo) realiza a «Pesquisa sobre Satisfação e Qualidade de Vida» (満足度・生活の質に関する調査), cujo objetivo é compreender a economia e a sociedade não só pelo PIB, mas de forma multidimensional, sob a ótica do bem-estar. Isso coincide com uma corrente social mais ampla, que muitos leitores reconhecerão de seus próprios debates, rumo a uma prosperidade que não se mede só em números.
O mesmo vale no terreno imobiliário. Não é a história simples de que números maiores trazem felicidade. Inquietação com a gestão, inquietação com a herança, inquietação por não ter um conselheiro de confiança: se permanecem, os ativos acabam pesando no ânimo.
Como escrevi em por que os abastados não confiam em seus assessores, o que de fato se precisa não é de alguém que venda produtos, mas de alguém que diga também as verdades incômodas. A riqueza não dispensa um interlocutor de confiança.
Os verdadeiramente ricos decidem o que não possuir
Os verdadeiramente ricos não apenas somam ao que possuem; decidem o que não possuir. Preservar espaço livre também é uma condição essencial da riqueza.
A expressão «superricos» pode evocar mansões, casas de veraneio, carros de luxo, relógios e obras de arte. Alguns, sem dúvida, desfrutam de tudo isso. Mas as pessoas que profundamente respeito olham menos a quantidade de bens e mais se eles cabem na vida que de fato levam.
Não manter imóveis que não usam. Não fazer investimentos que não saberiam explicar. Não multiplicar relações que desgastam a cada encontro. Não gastar tempo com aparências. Vistas de fora, essas «decisões de não possuir» parecem modestas.
No entanto, nessa sobriedade há força. Porque há espaço, dá para ouvir a família. Perceber as mudanças nos funcionários. Voltar a atenção à região e à sociedade. Riqueza não é poder comprar tudo; é poder reservar lugar para o que importa.
O World Happiness Report 2025 toma como tema o efeito do cuidado e da partilha (caring and sharing) sobre a felicidade. Compartilho profundamente essa visão. A riqueza tem este lado: encolhe quanto mais se acumula e se aprofunda quanto mais se usa para os outros.
O que a INA aprendeu sobre a essência de proteger os ativos
A essência de proteger os ativos, como a INA a aprendeu, não é só ordenar os números. É ordená-los até o ponto em que quem os receber depois não fique sobrecarregado.
Como empresa imobiliária, não podemos ignorar o retorno e o preço. Taxas de gestão, reformas, ocupação, preço de saída e efeitos fiscais importam todos. Mas, se uma proposta termina aí, ela não alcança as verdadeiras preocupações dos ultrarricos.
Suponha um proprietário de um prédio inteiro, dividido entre vender e deixar à geração seguinte. O necessário não é só a avaliação. É colocar tudo em perspectiva: a carga de gestão futura, o interesse dos herdeiros, a reorganização das dívidas, a relação com a região e a responsabilidade de explicar a decisão de manter.
Proteger os ativos não é só impedir que diminuam. É ordená-los para que o próximo os receba como sentido, e não como fardo.
A essência da riqueza que abordei em como muda a definição de sucesso retorna, no fim, a este ponto, é o que sinto. Quanto maior o patrimônio que se detém, mais a pergunta passa a ser «o que deixar» em vez de «o que ganhar».
Trazer a definição de riqueza de volta ao trabalho e à vida
A definição de riqueza não é assunto só dos ultrarricos. Para todos, é a pergunta de em que empregar o próprio tempo.
Os níveis de patrimônio diferem de pessoa para pessoa. As circunstâncias também. Mas o eixo a partir do qual pensamos a riqueza é comum. O que você preza? Quem você quer proteger? O que precisaria largar para a sua mente serenar?
O mesmo vale ao dirigir uma empresa. Aumentar a receita importa. Mas perseguir só a receita desgasta a sua gente (jinzai, 人財, que a INA escreve de propósito com o caractere de «tesouro» em vez de «material»), enfraquece a confiança dos clientes e, no longo prazo, mina os alicerces da empresa. Por isso a INA coloca as pessoas, a confiança e a visão de longo prazo no centro da gestão.
Riqueza é ter opções. E é poder, quando se as tem, escolher com calma, em consonância com os próprios valores.
A definição de riqueza que os ultrarricos do Japão me ensinaram não é, para mim, «possuir muito». É poder empregar com justeza o tempo, o patrimônio e a confiança para proteger o que importa. Desejo que essa quietude habite também o nosso trabalho.
Perguntas frequentes (FAQ)
Q1. Quem é considerado ultrarrico?
R. Em geral, o termo designa quem tem patrimônio financeiro líquido de 500 milhões de ienes ou mais (cerca de R$ 18 milhões em 06/2026). Neste ensaio, porém, o foco está nos valores e nos eixos de decisão, e não nos números.
Q2. A definição de riqueza difere de pessoa para pessoa?
R. Sim. O que é comum é que a riqueza envolve não só o dinheiro, mas também o tempo, a saúde, a confiança, a família e a liberdade de escolha, em profundidade.
Q3. Qual a relação entre imóvel e riqueza?
R. O imóvel é um ativo e, ao mesmo tempo, um recipiente que dá forma ao cotidiano, à sucessão e à relação com a região. Conforme a gestão, pode trazer tranquilidade ou virar fardo.
Q4. O que considerar primeiro para proteger o patrimônio?
R. Primeiro, esclarecer não o que se quer aumentar, mas o que se quer proteger. Definido o propósito, as decisões de investimento se ordenam.
Citações e referências
- Nomura Research Institute (野村総合研究所), «Os abastados e superabastados do Japão somam cerca de 1,65 milhão de domicílios, com patrimônio financeiro líquido estimado em cerca de 469 trilhões de ienes»
- Gabinete do Primeiro-Ministro do Japão (内閣府), «Pesquisa sobre Satisfação e Qualidade de Vida» (満足度・生活の質に関する調査)
- World Happiness Report 2025