As mudanças na construção civil não são um problema apenas de quem trabalha no canteiro de obras. Como afetam prazos, qualidade e projeções de custos de construção, esse é um tema que proprietários de imóveis e contratantes também não podem ignorar. O relatório publicado pelo Ministério do Território, Infraestrutura, Transporte e Turismo (MLIT) em abril de 2026 apresentou essa realidade de forma bastante direta.
A construção civil hoje não é simplesmente um setor com escassez de mão de obra — está em um momento em que a própria forma da indústria está sendo questionada. Por isso, a discussão desta vez não se limita à revisão de sistemas internos do setor, mas aborda também a questão de como proteger a capacidade de oferta de toda a sociedade.
Por que a política da construção civil está em um ponto de inflexão agora
O que mais chama atenção neste relatório é o posicionamento da construção civil como uma "indústria em uma encruzilhada crítica". Com a redução da população em idade ativa, a alta nos preços de materiais e equipamentos, e o avanço simultâneo da IA e das tecnologias digitais, tornou-se difícil continuar fazendo as coisas da maneira tradicional.
A construção civil é uma indústria fundamental que sustenta a infraestrutura social. No entanto, se as pessoas que sustentam os canteiros diminuem e as gerações mais jovens não conseguem visualizar um futuro na profissão, a sustentabilidade fica comprometida. Por isso, esta discussão não é uma simples melhoria setorial, mas trata de como proteger a capacidade de oferta do país.
Considerando esse contexto, as mudanças na construção civil estão diretamente ligadas ao mercado imobiliário. Por exemplo, olhar apenas para o aumento dos custos de construção não é suficiente. Se os profissionais que sustentam a oferta diminuem, se a forma de trabalhar nos canteiros muda e se a relação entre empreiteiras principais e subempreiteiras se transforma, isso também afeta a qualidade e os prazos dos imóveis finalizados. A situação atual da gestão imobiliária e a transformação pelo DX: propostas para a próxima geração de proprietários também aborda como os proprietários precisam ampliar sua visão além da administração e operação, incluindo as mudanças na construção civil que sustenta a oferta.
Quais são as três perspectivas apresentadas no relatório
O relatório apresenta três perspectivas como visão para o futuro da construção civil: "valorizar as pessoas", "ter verdadeira capacidade de gestão" e "ser sustentável para o futuro". Considero essa organização extremamente essencial.
A primeira é uma indústria que "valoriza as pessoas". Isso não é discurso motivacional. Inclui o desenho de sistemas para estabilizar a vida dos trabalhadores, como a transição para salários mensais, a revisão das condições de trabalho e a transparência das habilidades e experiências. Se quem trabalha no canteiro não consegue trabalhar com tranquilidade, nem a contratação nem a retenção avançam.
A segunda é uma indústria com "verdadeira capacidade de gestão". A construção civil entrou em uma fase em que não apenas a técnica, mas também a capacidade de gestão é exigida. Desde a forma de captar contratos, a análise de custos, o relacionamento com empresas parceiras até a sucessão empresarial — a qualidade da gestão determina a competitividade. Definição, papel, como encontrar e escolher uma empresa de gestão imobiliária — com foco na importância dos talentos também demonstra que o pré-requisito para um crescimento sustentável é a reestruturação da gestão centrada no investimento em talentos.
A terceira é uma indústria que "continua no futuro". Aqui, estão incluídas a revisão da estrutura de subcontratação em múltiplas camadas, a melhoria das práticas do setor, a criação de ambientes de trabalho acolhedores para mulheres e jovens, e até o aproveitamento de talentos internacionais. Uma indústria que continua no futuro não é aquela que busca apenas lucros de curto prazo, mas sim aquela na qual a próxima geração quer entrar.
Como enxergar os problemas estruturais da construção civil
O relatório organiza os desafios de forma bastante concreta. Os mais representativos são a estrutura de subcontratação em múltiplas camadas e as práticas contratuais. Em contratos de preço global único, a composição dos custos e a atribuição de responsabilidades ficam obscuras, e o ônus tende a recair sobre os níveis inferiores da cadeia. Essa estrutura dificulta que quem se esforça no canteiro seja devidamente recompensado.
Além disso, a questão salarial não é trivial. Enquanto persiste a prática de pagamento diário com ajuste mensal, os canteiros são suscetíveis a condições climáticas e variações de demanda, tornando difícil prever a renda. Isso representa uma grande fonte de insegurança para as gerações mais jovens. Para mudar a forma de trabalhar, é preciso mudar o sistema.
Ademais, a sucessão empresarial também é crucial. A construção civil tem alta proporção de pequenas e médias empresas, e a troca de gestão está diretamente ligada à sobrevivência da empresa. É necessário um mecanismo que permita transmitir não apenas a técnica do canteiro, mas também a gestão, a contratação e a relação de confiança com parceiros comerciais. Como premissa para isso, O que é gestão imobiliária? O trabalho da administradora e a entrega de valor com integridade mostra que é indispensável enxergar as pessoas não como custo, mas como patrimônio.
Como o salário mensal, o CCUS e o DX/IA transformam os canteiros
Nos materiais desta vez, os símbolos das mudanças futuras são o salário mensal e o CCUS. O salário mensal não é simplesmente uma mudança na forma de pagamento. É um pré-requisito para estabilizar a vida dos trabalhadores e apoiar a formação de habilidades a longo prazo. Com a estabilidade salarial, os jovens conseguem planejar melhor o futuro.
O CCUS é um sistema que torna visíveis as habilidades e experiências. Quando se pode visualizar que tipo de experiência foi acumulada e quais habilidades são dominadas no canteiro, a sensação de justiça nas avaliações aumenta. Isso beneficia tanto a contratação quanto a retenção. Transformar esforços invisíveis em avaliações visíveis é o primeiro passo para a melhoria das condições.
Por outro lado, o DX e a IA não substituem o canteiro. Pelo contrário, são ferramentas para que as pessoas se concentrem no trabalho que realmente devem fazer. Gestão de obras, compartilhamento de informações, documentação e coordenação de cronogramas ainda têm grande margem para melhoria. Ao dar suporte a essas áreas, a carga no canteiro diminui e a produtividade aumenta. Também aqui, como mostra A situação atual da gestão imobiliária e a transformação pelo DX: propostas para a próxima geração de proprietários, é importante usar a tecnologia não como fim em si mesma, mas como meio para que os talentos possam exercer plenamente suas capacidades.
O que proprietários de imóveis e contratantes devem observar?
Para proprietários de imóveis e contratantes, o mais importante é não avaliar as mudanças na construção civil apenas pelo viés do custo. A melhoria das condições de trabalho e as reformas institucionais podem parecer um ônus no curto prazo. Porém, a longo prazo, retornam na forma de estabilidade da qualidade, previsibilidade dos prazos e continuidade das empresas parceiras.
Além disso, a forma de contratação também precisa ser revista. A razoabilidade dos preços, a negociação em caso de alterações e a clareza na divisão de responsabilidades são a base da confiança. Avançar de forma ambígua gera mais problemas do que confirmar as condições de forma honesta desde o início. Acredito que aqui se reflete bem a "confiança e honestidade" que a INA&Associates valoriza.
Ainda, os proprietários devem observar não apenas "quanto custa a construção agora", mas também "essa empresa conseguirá executar obras de forma estável no futuro". Empresas com boa capacidade de gestão tendem a ser menos afetadas por ciclos econômicos e apresentam maior consistência nos canteiros. O mesmo vale para a gestão de imóveis para locação. A estabilidade do patrimônio depende de se o parceiro é alguém com quem se pode manter um relacionamento duradouro.
Como a INA&Associates deve enxergar essa questão?
Ao ler este relatório, reafirmo que os desafios da construção civil são, em última análise, desafios relacionados aos talentos. Por mais que os sistemas sejam aprimorados, quem sustenta o canteiro no final são as pessoas. E criar um ambiente onde essas pessoas possam trabalhar com segurança é responsabilidade da gestão.
Por isso, colocamos "valorizar as pessoas" no centro. Não buscar redução de custos no curto prazo, mas sim crescimento sustentável por meio do investimento em talentos. Acreditamos que essa é a postura fundamental comum tanto à construção civil quanto ao setor imobiliário.
A construção civil ainda pode se fortalecer se mudar o que precisa ser mudado. Na verdade, agora é a oportunidade de mudar. Gostaríamos que os leitores começassem por revisitar de forma mais aprofundada a maneira como avaliam seus parceiros comerciais e estruturam seus contratos.
Perguntas frequentes sobre a política da construção civil
Q1. Qual é o ponto mais importante do relatório sobre a política da construção civil?
R. O mais importante é a proposta de redesenhar a construção civil como uma "indústria que valoriza as pessoas". Foi apresentada uma postura de revisar simultaneamente as condições de trabalho, a forma de trabalhar e a capacidade de gestão.
Q2. Qual é o impacto do salário mensal nos canteiros de obras?
R. A estabilidade da renda aumenta, facilitando para os jovens planejarem o futuro. Há potencial de beneficiar tanto a contratação quanto a retenção de profissionais.
Q3. Por que o CCUS é necessário?
R. Para tornar visíveis as habilidades e experiências e aumentar a sensação de justiça nas avaliações. Quando as competências são transmitidas corretamente, fica mais fácil vinculá-las a condições adequadas de trabalho.
Q4. Como os proprietários de imóveis devem enxergar essa política?
R. É necessário olhar além dos custos de construção, incluindo prazos, qualidade e sustentabilidade da empresa construtora. A saúde da construção civil está diretamente ligada à estabilidade do patrimônio imobiliário.
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Referências e fontes
- Ministério do Território, Infraestrutura, Transporte e Turismo — Comunicado de imprensa: "Sobre o relatório do 'Grupo de Estudo sobre o Futuro da Política da Construção Civil'"
- Ministério do Território, Infraestrutura, Transporte e Turismo — "Grupo de Estudo sobre o Futuro da Política da Construção Civil"
- Ministério do Território, Infraestrutura, Transporte e Turismo — PDF do comunicado de imprensa
- Ministério do Território, Infraestrutura, Transporte e Turismo — PDF do texto integral do relatório
- Ministério do Território, Infraestrutura, Transporte e Turismo — "Sobre a revisão da Lei da Construção Civil e da Lei de Licitações (Lei nº 49 de 2024)"
- Ministério do Território, Infraestrutura, Transporte e Turismo — "Portal do Sistema de Desenvolvimento de Carreira na Construção (CCUS)"
- Ministério do Território, Infraestrutura, Transporte e Turismo — "Portal sobre padrões de custos trabalhistas"